Supremo é alvo de críticas frequentes por postulantes ao Planalto; oposição usa estratégia para conquistar eleitores e só Lula (PT) e Edmilson (PCB) saíram em defesa da Corte
Dos 12 pré-candidatos à Presidência da República, 10 já se posicionaram contra a atuação do Supremo Tribunal Federal e dos ministros da Corte em 2026. O Poder360 analisou publicações em redes sociais, declarações à imprensa e posicionamentos enviados pelos próprios postulantes ao Planalto a este jornal digital. Foram considerados os nomes testados nas pesquisas eleitorais.
O pré-candidato Romeu Zema (Novo) tem apostado em críticas ao Supremo para conquistar eleitores. Classifica parte dos ministros como “os intocáveis”. Na última semana, o ex-governador de Minas Gerais entrou em embate direto com o ministro Gilmar Mendes, que, na 2ª feira (20.abr.2026), pediu a Alexandre de Moraes a inclusão de Zema no inquérito das fake news. A solicitação citou uma série publicada pelo pré-candidato nas redes sociais em que exibe fantoches satirizando Mendes e Dias Toffoli.
A oposição intensificou as críticas após a condenação de Jair Bolsonaro (PL) e de outras pessoas pelo 8 de Janeiro. As fraudes bilionárias do Banco Master engrossou o coro contrário aos ministros –sobretudo Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Eis as controvérsias apontadas pelos políticos:
a atuação inicial de Dias Toffoli como relator, alvo de questionamentos sobre possível conflito de interesse após reportagens apontarem viagem em jatinho com advogado do banco e participação no hotel Tayayá com pessoas ligadas a Daniel Vorcaro, fundador da instituição que já foi liquidada;
mensagens que teriam sido enviadas por Vorcaro a um número associado a Alexandre de Moraes no dia de sua 1ª prisão —uso negado pelo ministro;
contratos do escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, com o banco, que somam cerca de R$ 80 milhões.
Pesquisa PoderData, publicada em 27 de março, mostra que 52% dos eleitores afirmam que o trabalho desempenhado pelos ministros da Corte é “ruim” ou “péssimo”. Outros 33% consideram “regular” e 9%, “ótimo”.
Leia, abaixo, as declarações dos 10 pré-candidatos à Presidência que
Aldo Rebelo
Aldo Rebelo (DC) criticou o que chamou de “ativismo judicial” à Jovem Pan em 21 de abril de 2026 e afirmou que é preciso um “encontro de contas” com o Tribunal.
“No 1º dia [de gestão] tem que fazer um encontro de contas com o Supremo Tribunal Federal. O Supremo Tribunal Federal não pode ser uma instituição que para o país como tem parado com esse caso da ferrogrão. Se o presidente Lula conseguir indicar o doutor Messias, será o 11º ministro do Supremo que ele indica. Com mais 5 da presidente Dilma (PT), serão 16 ministros indicados pelo mesmo esquema de poder. Ora, se o presidente pode indicar 11, por que é que aquele que vai ser eleito com outra orientação não pode indicar pelo menos 6, para equilibrar a correlação de forças dentro do Supremo? Por que senão o Brasil vai ficar ingovernável. Até agora, pelo que foi divulgado, o Banco Master está atingindo todo mundo. Todos os três poderes, o Supremo, o Congresso e o Executivo, ainda tem o INSS”, disse Aldo Rebelo.
Augusto Cury
Augusto Cury (Avante) propôs em entrevista a Alessandra Ferreira, do Metrópoles, em 7 de março de 2026, a reforma do STF com fim dos mandatos vitalícios. Cury propõe gestões de 8 a 10 anos. Outra queixa foi sobre as transmissões ao vivo dos julgamentos. Segundo ele, o ato cria uma “espetacularização” dos votos.
“Falei do meu projeto de provocar o Congresso para fazer uma reforma do STF, onde proponho o fim da vitalicidade. Os novos ministros ficariam de 8 a 10 anos [no cargo], 2/3 dos ministros seriam da magistratura, escolhidos pela AMB ou Ajufe, que são as instituições da magistratura, 2 ou 3 do Ministério Público, escolhidos pela classe, não mais pelo presidente, e um advogado escolhido pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). E sem a transmissão ao vivo (dos julgamentos) para não gerar a espetacularização do voto, para que eles tenham liberdade”, disse Cury.
Cabo Daciolo
Cabo Daciolo (Mobiliza) disse à Manhã de Notícias que há “um problema muito sério na instituição política jurídica do Brasil” e afirmou que os ministros do STF não são “juízes de verdade”, mas ocupantes de um “cargo político” por indicação.
“Tem um problema muito sério na instituição política jurídica do Brasil com a sua cadeira máxima que é o Supremo Tribunal Federal. No Brasil hoje nós temos 2.000 juízes federais, a quantidade é essa. A questão é que nós temos 11 ministros no STF e nenhum deles é juiz de verdade. Ali é cargo político, ali infelizmente a pessoa tem mais de 37 anos e é notável em saber jurídico. Ali, na verdade, é uma pessoa indicada por alguém. Eu acho que nós temos que enaltecer todos os nossos juízes federais que estão ali capacitados, estudados, se prepararam, qualificados e da e de e e colocar essas pessoas no futuro na cadeira de um Supremo Tribunal Federal. Essa questão de ser cargo político por indicação, acontece tudo que tá acontecendo na nação brasileira”, disse Daciolo.
Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro (PL) disse em 17 de abril de 2026 que Alexandre de Moraes quer desequilibrar as eleições de 2026.
“Está muito claro qual é a estratégia. Já que agora Alexandre de Moraes não está mais no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ele vai querer desequilibrar as eleições lá do Supremo. […] Essa prática não dá para aceitar em outras eleições, agora em 2026”, afirmou Flávio.
O senador também se solidarizou com Romeu Zema, após o ex-governador de Minas Gerais ser alvo de ação de Gilmar Mendes.
“Bom, em 1° lugar, minha solidariedade aqui ao Romeu Zema, que é mais uma vítima dessa militância que existe no judiciário, esse ativismo judicial, que é muito lamentável”, disse Flávio Bolsonaro na 4ª feira (22.abr).
Hertz Dias
Hertz Dias (PSTU) afirmou ao Poder360 que avalia que não se deve confiar no STF. Defende ser preciso apurar os ministros envolvidos em casos como o do Banco Master. Eis o posicionamento completo de Dias:
“O STF —como as demais instituições desse regime dos ricos, a exemplo do Congresso Nacional— serve aos interesses dos bilionários e dos monopólios capitalistas, atuando para mantê-lo e protegê-lo. O escândalo do Banco Master escancara isso, assim como as recentes decisões relacionadas à pejotização, que legitimam rasgar a CLT, ou o Marco Temporal.
“O STF assumiu um protagonismo em relação à tentativa de golpe de Estado promovida pelo bolsonarismo não porque seja favorável aos trabalhadores, ou às liberdades democráticas, mas porque, naquele momento, uma mudança de regime não era favorável a eles, e aos setores que representam.
“Neste sentido, chamamos a classe trabalhadora e o povo pobre e oprimido, a não depositarem qualquer confiança no STF nem terceirizar a luta contra a extrema direita, como fez e continua fazendo o governo Lula, mas a confiarem em suas próprias forças para derrotar de vez a ameaça golpista da ultradireita, e combater as medidas contra os trabalhadores tomadas pelo tribunal, exigindo, inclusive, apuração completa e punição a todos os ministros envolvidos no escândalo do Banco Master.”
Renan Santos
Renan Santos (Missão) comandou manifestações na frente do Banco Master contrário à atuação de ministros do STF e já afirmou que os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli deveriam ser presos.
“O Alexandre Moraes tem que sofrer impeachment. Eu, na verdade, eu acho que tanto o Alexandre de Moraes quanto Dias Toffoli, eles precisam ser presos. Não há, não há como eles fingirem normalidade nesse caso envolvendo o Banco Master”, disse em entrevista a Rádio Cidade em Dia na 4ª feira (22.abr.2026).
Ronaldo Caiado
Ronaldo Caiado (PSD) afirmou na 5ª feira (23.abr.2026) que há uma “anomalia do sistema político brasileiro”. O ex-governador de Goiás disse que, se eleito, pretende propor mudanças nos critérios para escolha de ministros e estabelecer idade mínima de 60 anos para o cargo.
“Esse excesso está muito claro. Não é ‘eu acho’. Isso é uma realidade. Você vive uma anomalia do sistema político brasileiro. O Supremo tem que ser reformado, sim. Eu proponho 60 anos de idade como idade mínima e um currículo consagrador de jurista e constitucionalista”, disse Caiado em entrevista aos jornalistas Lorenna Rodrigues e Victor Ohana, do jornal O Estado de S. Paulo.
Rui Costa Pimenta
Em 14 de fevereiro, Rui Costa Pimenta, pré-candidato pelo PCO, tem sustentado que há uma concentração excessiva de poder no STF, especialmente após os desdobramentos dos Atos de 8 de Janeiro. Segundo ele, a resposta institucional aos episódios ampliou o protagonismo do Judiciário e resultou em medidas que, em sua avaliação, extrapolam os limites tradicionais de atuação da Corte.
Pimenta também questiona o enquadramento dos atos como tentativa de golpe de Estado. Para o pré-candidato, essa interpretação teria servido para justificar decisões mais duras e fortalecer o poder do STF. Ele afirma que o cenário atual não deve ser analisado apenas sob a lógica da polarização entre Jair Bolsonaro e seus opositores, mas sim como parte de uma disputa mais ampla envolvendo instituições e interesses políticos e econômicos.
Além disso, o dirigente critica setores da esquerda por, segundo ele, apoiarem medidas que restringiriam garantias legais em nome do combate a ameaças autoritárias. Na sua avaliação, o foco deveria estar na defesa de direitos e no equilíbrio entre os Poderes, evitando que respostas institucionais acabem, na visão dele, comprometendo princípios democráticos.
“Ameaça [à soberania] é o golpe de Estado que o STF já deu no país. Não podemos, por medo de um fascismo hipotético, ajudar a consolidar a ditadura que está acontecendo no Brasil”, disse em setembro de 2025 em referência à atuação do STF.
“Aí a esquerda pequena burguesa acha que a condenação de Bolsonaro vai ser uma grande vitória da democracia, o que é uma bobagem. Você condenar uma pessoa num processo farsa e dá poderes extraordinários ao Estado capitalista, não é defender a democracia, é uma ditadura, seja lá contra quem for”, acrescentou.
Em entrevista à Causa Operária, publicada na 6ª feira (24.abr), Pimenta saiu em defesa de Zema e defendeu que críticas a autoridades públicas devem ser plenamente permitidas, independentemente da interpretação sobre os limites da liberdade de expressão. Na sua visão, ministros do STF exercem papel político e, por isso, não poderiam ser blindados de manifestações críticas, inclusive quando feitas por outros agentes políticos. O dirigente sustenta que restringir esse tipo de manifestação comprometeria princípios básicos do debate público.
“Eles pegaram uma declaração minha, numa análise política, onde eu explicava que nós somos a favor do fim do STF. É uma posição política. Por que eu não posso defender o fim do STF? Tanto que, no interrogatório, no inquérito, o cidadão da Polícia Federal me perguntou sobre isso e eu falei: ‘olha, eu não estou propondo juntar um pessoal e ir lá fechar o STF na pancada. Não é isso que eu estou propondo. Estou propondo uma reforma política’. Eu nunca propus fechar o STF à força, se é essa interpretação que vocês estão dando. O que, na minha opinião, também seria legítimo de falar, mas eu nunca falei isso. E mesmo assim, curioso, a conclusão do inquérito foi que nós éramos culpados. Eu não sei do que nós somos culpados”, disse.
Samara Martins
Samara Martins (UP) defendeu ao Poder360 eleições diretas para o Judiciário, com juízes, promotores e ministros escolhidos pelo voto e com mandatos, não cargos vitalícios. Também afirma que é preciso “superar a democracia burguesa” e implementar o socialismo, sem influência dos “grandes ricos” nas esferas dos 3 poderes.
“A nossa pré-candidatura, baseada no programa da Unidade Popular pelo Socialismo (UP), defende que haja eleições diretas para o Judiciário, para que toda a população possa eleger, através do voto, os juízes, promotores e ministros, que não devem ter cargos vitalícios, mas sim mandatos. Nada disso, porém, se concretiza sem que a democracia seja alargada. Precisamos superar a democracia burguesa, na qual o poder do grande capital e do dinheiro é que decide tudo, para implementar uma democracia popular e um novo sistema, o Socialismo, em que os interesses da classe trabalhadora serão verdadeiramente soberanos nas decisões em relação ao executivo, legislativo e o judiciário, sem interferência da fortuna dos grandes ricos e monopólios nacionais e internacionais”, disse Samara Martins.
OS OUTROS 2 PRÉ-CANDIDATOS
Na abertura do ano Judiciário, em 2 de fevereiro de 2026, Luiz Inácio Lula Silva (PT), presidente do Brasil, colocou o STF (Supremo Tribunal Federal) como fiador da democracia e a Corte não extrapolou funções depois das condenações de 8 de Janeiro.
Lula disse que o Brasil respondeu “com altivez” a pressões internas e externas e que as instituições cumpriram seu papel depois dos ataques de 8 de Janeiro. O petista disse que o STF não extrapolou suas funções e disse que a Corte cumpriu seu papel. “O Supremo não buscou protagonismo, muito menos tomou para si atribuições de outros Poderes”, afirmou na ocasião.
Ao discursar, também disse que o ataque de 2023 tentou romper a ordem constitucional e desrespeitar a vontade popular. Para Lula, o julgamento dos envolvidos fortaleceu a democracia. “Aquelas que atentaram contra a democracia tiveram julgamento justo, com amplo direito de defesa”, disse.
Apesar disso, o programa partidário do PT, que formalizado na 6ª feira (24.abr.2026), propõe a criação de códigos de ética nas Cortes superiores, incluindo o STF, e mecanismos de controle republicano e autocorreção. O programa partidário não faz promessas ao eleitor. Ele define uma linha de atuação partidária sem detalhar as políticas públicas que defende. Leia mais aqui.
Edmilson Costa, pré-candidato pelo PCB, afirmou ao Poder360 que o STF teve papel importante na defesa das liberdades democráticas em determinados momentos, mas também adotou medidas contrárias aos trabalhadores, sem se posicionar de forma diretamente contrária à Corte.
“O STF teve um papel importante na defesa das liberdades democráticas diante da ofensiva golpista do período Bolsonaro, mas em contrapartida tomou várias medidas contra os trabalhadores. Positiva em relação a defesa das liberdades democráticas e negativa em relação aos trabalhadores”, afirmou o secretário-geral do PCB.