Concessão de crédito tem recuo, enquanto endividamento sobe

Bancos reduzem concessões para pessoas físicas diante de cautela com endividamento das famílias e de Selic alta

O nível de concessão de crédito livre pelos bancos –empréstimo com juros definidos livremente, sem regras do governo para pessoas físicas– teve queda de 8,1% de janeiro a fevereiro de 2026. Passou de R$ 331,9 bilhões para R$ 304,9 bilhões. Em dezembro de 2025, chegou a R$ 363,2 bilhões.

Os dados do BC indicam que as instituições financeiras estão mais cautelosas diante do cenário de Selic elevada e endividamento crescente. Com a taxa de juros em 14,75%, o crédito fica mais caro, enquanto os bancos reduzem riscos, aprovando menos operações e exigindo mais garantias.

Desde outubro, ainda segundo dados da autoridade monetária, o comprometimento da renda das famílias para dívidas está perto de 1/3. Já a taxa de juros média dos recursos livres atingiu 62% em fevereiro –novo recorde. 

“Espera-se uma maior rigorosidade na concessão de crédito em 2026, com as instituições financeiras elevando os spreads e exigindo garantias mais elevadas, por causa da incerteza econômica e pelas preocupações com a inadimplência“, declarou a especialista em finanças Milene Dellatore, sócia-diretora da Mide Mesa Proprietária. “É o sistema financeiro sinalizando que o risco está alto demais para continuar emprestando na mesma velocidade. É um mecanismo de ajuste, só de forma dolorosa”, afirmou. 

Para o economista-chefe da 4intelligence, Bruno Imaizumi, apesar de a desaceleração ser pequena, é provável que os bancos fiquem mais cautelosos: “Os bancos tendem a acompanhar as decisões de política monetária. A gente tem fiscal expansionista e monetário restritivo. É possível, sim, que os bancos tenham um pouco mais de cuidado. Chama a atenção essa questão de uma certa moderação nas linhas de crédito”.

BUSCA POR LINHAS MAIS CARAS

Com o início de uma restrição de crédito, as famílias passam a buscar outras linhas, e, geralmente, as que estão disponíveis são as mais caras.

“As pessoas não param de consumir do dia para a noite. Elas migram para o que está disponível, mesmo que seja muito mais caro. Sem ter para onde ir, elas recorrem ao cartão ou ao cheque especial. O crédito às famílias está crescendo mais rapidamente do que o das empresas, em grande parte pela dependência das linhas rotativas”, afirmou Imaizumi.

É nesse cenário que o risco de inadimplência cresce. “É um ciclo perverso: o banco restringe as linhas tradicionais. As famílias ficam mais endividadas, ficam inadimplentes depois, e o banco restringe mais ainda o crédito”, disse Dellatore.

DESACELERAÇÃO

Segundo a especialista em finanças e endividamento, com o crédito em queda e o endividamento alto, a tendência é que haja uma desaceleração do consumo e da atividade. 

“O único paralelo histórico recente que a gente tem é o período de 2015 a 2017. Naquele ciclo, o endividamento caiu acompanhado de recessão severa, desemprego acima de 13% e intensa contração do consumo. Hoje o endividamento está muito acima daquele patamar. Se a correção vier, ela pode ser mais dura”, afirmou Dellatore.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-economia/concessao-de-credito-tem-recuo-enquanto-endividamento-sobe/

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