Declaração vem depois de Gilmar Mendes pedir para Alexandre de Moraes incluir o ex-governador no inquérito das fake news
O ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência, Romeu Zema (Novo), afirmou, nesta 2ª feira (20.abr.2026), que o Supremo Tribunal Federal está o perseguindo. A declaração vem em resposta ao ministro Gilmar Mendes, que pediu ao ministro Alexandre de Moraes que Zema seja investigado no inquérito das fake news.
A apuração tem como base um vídeo de fantoche que satiriza o envolvimento do STF com o Banco Master. A publicação faz parte de uma série produzida pela equipe de Zema chamada “Os Intocáveis”.
Em um vídeo publicado em seu perfil oficial no Instagram, o pré-candidato afirmou que o inquérito das fake news é, na verdade, “um passe livre para fazer o que eles [ministros] bem entenderem”. Zema ressaltou: “Eles são ao mesmo tempo a vítima, o acusador e o juiz, e não existe ninguém que possa mudar isso hoje”.
O ex-governador questionou a possibilidade de satirizar quem está no poder no país. Ele comparou a situação atual com o passado. Disse que humoristas e cartunistas como Charles Chaplin e o programa Casseta e Planeta questionavam o poder livremente, mas “aqueles que se julgam intocáveis não toleram mais qualquer tipo de piada”, destacou.
“O nome da série que minha equipe fez chama-se justamente Os Intocáveis, e com essa tentativa de me perseguir, eles mostram que são exatamente isso. Fico triste, não de estar sendo perseguido, tenho tranquilidade de que estou do lado certo da história”, afirmou Zema.
O pré-candidato manifestou tristeza por ver “um país que está definhando e que não garante o mínimo de liberdade de expressão para seu povo”. Zema finalizou citando o autor George Orwell: “Se a liberdade significa alguma coisa, será sim, sobretudo, o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”.
Assista ao vídeo (3min43s):
Na notícia-crime, o ministro Gilmar afirmou que o ex-governador teria tratado com desdém “não apenas a honra e a imagem” do STF, mas também a sua própria honra. Moraes já encaminhou o caso à PGR (Procuradoria-Geral da República).
O vídeo satiriza a decisão de Gilmar Mendes que, em 27 de fevereiro, anulou a decisão da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado, que havia determinado a quebra dos sigilos bancários, fiscal e telemáticos da empresa Maridth Participações, ligada à família de Toffoli.
O ministro cita o uso de deepfake e “sofisticada edição profissional” para simular as vozes dos ministros e um diálogo “que, além de inexistente, tem como claro intuito vulnerar a higidez desta instituição da República”, em referência ao STF.
“OS INTOCÁVEIS”
Os vídeos divulgados nos perfis do X e do Instagram do ex-governador também ironizam o desfile do Carnaval sobre Lula e os desenrolares do caso Master.
O 1º episódio, publicado em 23 de fevereiro, tem as representações do ministro Alexandre de Moraes e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A legenda que acompanha a publicação diz: “E se existisse uma série sobre os intocáveis do Brasil? O 1º episódio seria mais ou menos assim.”
Assista (49s):
ENTENDA O INQUÉRITO DAS FAKE NEWS
O inquérito das fake news foi aberto pelo STF em 14 de março de 2019 sob o nº 4.781 (íntegra da portaria de abertura – PDF – 621 kB). A investigação continua aberta até hoje, está sob sigilo, já teve centenas de indiciados e não tem prazo para acabar.
A criação do inquérito das fake news se deu por decisão do então presidente do Supremo, Dias Toffoli. O objetivo era difuso. Visava a apurar ofensas consideradas criminosas à Corte e seus integrantes. À época, havia uma disputa entre o Supremo e os então procuradores da operação Lava Jato, liderados por Deltan Dallagnol. Os integrantes do Ministério Público discordavam de decisões tomadas pelos ministros do STF e publicavam vídeos e textos na internet incentivando a população a fazer pressão e a defender as apurações da Lava Jato –que ao longo dos anos foram anuladas em várias Instâncias do Judiciário, apesar da abundância de provas materiais contra os acusados.
Toffoli criou o inquérito de ofício em março de 2019, sem ter sido provocado pelo Ministério Público. Também resolveu sozinho nomear, de ofício, o ministro Alexandre de Moraes como relator. Na portaria de instauração da investigação, Toffoli apresentou de maneira genérica a criação do inquérito:
“Considerando a existência de notícias fraudulentas (fake news), denunciações caluniosas, ameaças e infrações revestidas de animus calumniandi, diffamandi e injuriandi, que atingem a honorabilidade e a segurança do Supremo Tribunal Federal, de seus membros e familiares” [resolve] “instaurar inquérito para apuração dos fatos e infrações correspondentes, em toda a sua dimensão”.
Toffoli não detalhou nenhum fato específico ao abrir o inquérito das fake news. O ministro tampouco explicou por que não seguiu o que determina o artigo 66 do Regimento Interno do STF sobre como devem ser escolhidos os ministros relatores: “A distribuição será feita por sorteio ou prevenção, mediante sistema informatizado, acionado automaticamente, em cada classe de processo”.
A então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, manifestou-se em julho de 2019 a favor de pedido da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) pela suspensão do inquérito aberto das fake news. No seu parecer, Dodge argumentou que a investigação, da forma como havia sido instaurada, representava violação ao sistema constitucional acusatório e dos princípios da separação de Poderes e do juiz natural.
Depois de muito debate, o julgamento da legalidade do inquérito das fake news foi concluído em junho de 2020 pelo próprio STF só mais de 1 ano após ter sido instaurado. Por 10 a 1, a Corte decidiu que a investigação era legal e deveria ser mantida. Só o então ministro Marco Aurélio Mello divergiu. Votaram a favor de manter o inquérito Edson Fachin (relator do pedido de suspensão), Alexandre de Moraes (relator do inquérito), Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Rosa Weber, Luiz Fux, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e Dias Toffoli.
Leia mais sobre o inquérito nesta reportagem.