País concentra a maior parte das unidades no Sudeste; crescimento esbarra em energia, infraestrutura e impacto ambiental
Os data centers –grandes infraestruturas físicas responsáveis por armazenar, processar e distribuir dados digitais– vivem uma fase de expansão acelerada no Brasil e no mundo. Base invisível da economia digital, essas estruturas sustentam serviços bancários, redes sociais, plataformas de streaming, comércio eletrônico, sistemas públicos e demais atividades conectadas à internet. Sua importância cresceu com o avanço da inteligência artificial (IA), que elevou a demanda global por novas instalações.
Modelos de IA exigem enorme capacidade computacional tanto para treinamento quanto para operação cotidiana. Isso significa milhares de processadores funcionando ao mesmo tempo, com alto consumo de energia e necessidade de sistemas avançados de resfriamento. Como resultado, empresas de tecnologia e fundos de investimento intensificaram a corrida global por novos data centers, sobretudo os voltados a essas operações.
No Brasil, há 205 data centers em operação. O Sudeste reúne 128 unidades –mais da metade do total nacional. A cidade de São Paulo lidera com folga. Concentra 59 instalações, seguida por Campinas (26) e Rio de Janeiro (24).
O mapa revela que a expansão não se restringe às capitais. Municípios do interior e polos empresariais também ganharam relevância. Tamboré, em São Paulo, por exemplo, soma 8 data centers e supera capitais como Curitiba (7) e Belo Horizonte (4). Isso se dá porque essas áreas costumam oferecer terrenos maiores, melhor logística, proximidade com redes de fibra óptica e custos operacionais menores do que centros urbanos tradicionais.
No recorte estadual, São Paulo domina o setor, com 96 unidades em funcionamento. Depois vêm Rio de Janeiro (24) e Rio Grande do Sul (14). A concentração evidencia uma característica histórica do mercado brasileiro: infraestrutura digital costuma seguir a geografia econômica do país, instalada onde já existe maior atividade empresarial, rede elétrica robusta e demanda consolidada.
O crescimento segue em curso. Levantamento do Poder360 indica ao menos 10 data centers em construção no país. Seis desses empreendimentos estão no Sudeste, enquanto os demais se distribuem entre Sul e Nordeste. Regiões fora do eixo tradicional começam a disputar projetos, especialmente quando oferecem energia disponível, incentivos fiscais e áreas adequadas para grandes instalações.
O problema da energia
Data centers funcionam 24 horas por dia, sem interrupção. Qualquer falha pode derrubar serviços digitais usados por milhões de pessoas. Por isso, operadoras mantêm subestações dedicadas e geradores próprios.
A chamada “capacidade” de um data center se refere ao volume de energia que ele pode consumir para operar seus equipamentos. Quanto maior a demanda computacional, maior a necessidade elétrica. Isso se tornou ainda mais relevante com a IA, já que chips especializados consomem muito mais energia do que servidores convencionais.
O Brasil possui um atrativo relevante: matriz elétrica relativamente limpa, baseada em hidrelétricas, além de expansão em fontes solar e eólica. Para empresas globais pressionadas por metas ambientais, isso pode tornar o país competitivo.
Mas há limitações. A rede elétrica brasileira ainda enfrenta gargalos regionais, demora em conexões e dificuldade para expandir oferta rapidamente em certas áreas. Em alguns casos, o acesso à energia virou o principal critério para definir onde um novo data center será instalado.
Lourenço Galvão, economista formado pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), é crítico da expansão dos data centers. Em entrevista ao Poder360, disse que o impacto na geração de empregos não é limitada e os complexos consomem recursos e ocupam espaço.
“Esses investimentos consomem recursos, ocupam espaço, mas o retorno positivo para a sociedade é muito limitado. Quem realmente se beneficia são os donos, a construtora, as empresas fornecedoras de energia, mas não a população local. Além disso, há incentivos fiscais que podem reduzir ainda mais o retorno para o município, como a isenção de ICMS para atrair data centers”, afirmou.
Água e impacto ambiental
Outro ponto sensível é o resfriamento. Servidores geram calor intenso e precisam operar em temperatura controlada. Historicamente, parte desse resfriamento dependia de grande uso de água, o que gerou críticas ambientais, sobretudo em regiões sujeitas a escassez hídrica.
Segundo Fernando Madureira, diretor técnico da ABDC (Associação Brasileira de Data Centers), tecnologias mais recentes reduziram drasticamente esse problema. Ele afirma que sistemas atuais reaproveitam recursos e praticamente eliminam perdas significativas de água.“Hoje as soluções de resfriamento não têm consumo e perda de água. Esse tipo de tecnologia ficou no passado”, afirmou.
Ainda assim, especialistas alertam que o impacto ambiental varia conforme o projeto. Nem todos os empreendimentos usam a tecnologia mais eficiente, e a pressão sobre redes elétricas, uso do solo e emissões indiretas também precisa entrar no cálculo.
Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-infra/brasil-chega-a-205-data-centers-para-lidar-com-avanco-da-ia/