Aos poucos, Venezuela expurga os aliados de Maduro do governo

Presidente Delcy Rodriguez, que assumiu com o beneplácito de Donald Trump, faz no comando do país o que os Estados Unidos queriam

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez (MSV, esquerda), já substituiu 17 ministros, comandantes militares e diplomatas em Caracas que eram aliados do presidente deposto Nicolás Maduro (PSUV, esquerda). As mudanças atingem empresários bilionários, toda a cúpula militar e parentes do ex-líder.

A reformulação do governo venezuelano é consequência direta da captura de Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em uma operação das Forças Especiais dos EUA, em 3 de janeiro de 2026. O governo norte-americano ameaçou atacar a Venezuela novamente caso os novos líderes se recusassem a cooperar. As informações são dos jornalistas Anatoly Kurmanaev e Mariana Martínez, do jornal norte-americano The New York Times.

Rodríguez utiliza essa ameaça de coerção da administração do presidente Donald Trump (Partido Republicano) para perseguir integrantes do partido governante que anteriormente eram considerados intocáveis.

A situação permite que autoridades estadunidenses acertem contas com aliados de Maduro que os haviam desafiado e, ao mesmo tempo, consolida a liderança de Rodríguez. A presidente iniciou o que tem sido chamado de “limpeza” no governo venezuelano logo depois da captura do ex-presidente.

Oligarcas ligados à família de Maduro foram retirados de suas residências e aliados políticos do ex-mandatário perderam seus postos sem explicações públicas. Familiares de Maduro também foram impedidos de participar de negócios e de aparecer na mídia.

Essas detenções e expurgos na liderança foram realizados frequentemente com aprovação da Casa Branca, segundo a reportagem do New York Times. Em outros casos, as mudanças ocorreram por insistência do governo americano.

DEMISSÕES

Pelo menos 3 empresários ligados a Maduro foram detidos. Vários parentes do ex-presidente foram demitidos e parte de sua família foi cortada de contratos de petróleo.

Já os amigos, associados de negócios e companheiros de partido de Maduro enfrentam um cenário de ansiedade e perigo. Mais de uma dúzia de pessoas próximas ao ex-mandatário relataram ao New York Times que temem represálias.

O ministro mais antigo de Maduro, o general Vladimir Padrino López, foi demitido do Ministério da Defesa em março. Posteriormente, recebeu um cargo de menor relevância na administração da agricultura.

O filho de Maduro, Nicolás Maduro Guerra, e um filho de Cilia Flores, Yosser Gavidia Flores, foram afastados de negócios lucrativos com o Estado, de acordo com integrantes do governo ouvidos pelo New York Times.

O procurador-geral de Maduro, Tarek William Saab, foi demitido, recebeu um cargo de consolação e depois foi dispensado novamente.

Segundo a reportagem, o primeiro confidente de Maduro a cair foi Alex Saab, um empresário colombiano e marido de Camilla Fabri, que era enviada de imigração de Maduro e perdeu seu cargo.

Saab fez bilhões com contratos preferenciais de comércio de alimentos e petróleo. Está sob acusação nos Estados Unidos por crimes relacionados à corrupção.

Em 16 de janeiro, Rodríguez escreveu em seu perfil oficial no X que Saab não era mais o ministro da Indústria da Venezuela. Agradeceu-lhe “por seu serviço à Pátria” e disse que ele “assumiria novas responsabilidades”. Duas semanas depois, Saab foi detido. Autoridades americanas e Rodríguez negociam seu destino, que inclui uma possível extradição para os Estados Unidos.

Pessoas próximas a Rodríguez afirmaram ao New York Times que ela supervisionou a detenção de outros 2 empresários proeminentes próximos à família de Maduro: Raúl Gorrín e Wilmer Ruperti. Gorrín também enfrenta uma acusação relacionada à corrupção nos Estados Unidos.

COORDENAÇÃO COM WASHINGTON

O cargo de interina de Rodríguez começou horas depois da captura de Maduro, em 3 de janeiro, com um discurso criticando a agressão dos EUA. Uma semana depois, em 10 de janeiro, ela liderou uma comitiva de influentes e autoridades cubanas para homenagear dezenas de militares cubanos e venezuelanos que morreram no ataque estadunidense.

Rodríguez está abrindo as portas para investidores americanos de petróleo e mineração. A aliança com o presidente Trump, juntamente com novas leis abrangentes, está remodelando a Venezuela e sua gestão das reservas de petróleo. 

A aparente facilidade com que as forças dos EUA arrebataram Maduro de uma base militar fortemente guardada alimentou a suspeita de que ele foi traído por pessoas que se beneficiaram de sua queda.

Um alto funcionário venezuelano, 1 dia depois do ataque dos EUA, disse que a traição havia sido cometida. Autoridades da Rússia, que perdeu um aliado em Maduro, fizeram alegações semelhantes.

Segundo a reportagem, o governo Trump vinha considerando Rodríguez como sucessora de Maduro desde 2025 e manteve contato indireto com ela. Não houve evidência de que ela estivesse a par dos planos militares dos EUA. Esse fato não diminuiu a desconfiança dentro do partido governante.

REESTRUTURAÇÃO

A presidente venezuelana encontrou nomes dispostos nas forças de segurança do país. Esses agentes prometeram lealdade na esperança de evitar retaliação por décadas de abusos dos direitos humanos.

Alguns antigos opositores do governo foram atraídos por oportunidades de carreira. Oliver Blanco, o novo enviado da Venezuela para a América do Norte e Europa, trabalhou como assistente pessoal de um líder da oposição.

A reestruturação econômica de Rodríguez inclui também as elites econômicas tradicionais da Venezuela. Elas antes apoiavam a oposição, mas fizeram as pazes com o chavismo. A aposta dessas elites na estabilidade em vez da democracia lhes deu acesso aos mercados estrangeiros e ao sistema bancário dos EUA.

Só 1 ministro sênior do governo de Maduro permanece em seu posto: Diosdado Cabello, o ministro do Interior que supervisionou o aparato de repressão do partido governante.

Cabello é procurado pelos Estados Unidos sob acusações de tráfico de drogas. Já havia entrado em conflito com Rodríguez no passado. Suas conexões com grupos armados pró-governo também o tornaram um aliado valioso e um alvo arriscado.

“Vamos acompanhar nossa irmã Delcy”, disse Cabello em um comício do governo. “Vamos confiar completamente na capacidade, ética de trabalho e consciência da camarada Delcy.”

A adaptação de Cabello manteve seu primo e seu irmão em seus cargos. Dirigem, respectivamente, a polícia secreta e o serviço fiscal da Venezuela. Sua filha é a nova ministra do Turismo da Venezuela.

O grupo de pessoas que perdeu com a queda de Maduro é diverso. Inclui parentes do ex-presidente e de seu predecessor Hugo Chávez. Muitos deles acumularam grande riqueza nas quase 3 décadas de governo combinado dos 2 líderes.

Segundo o The New York Times, também fazem parte desse grupo empresários que devem suas fortunas a laços pessoais com os 2 presidentes. Veteranos do movimento socialista formado por Chávez na década de 1990, conhecido como chavismo, completam esse grupo.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-internacional/aos-poucos-venezuela-expurga-os-aliados-de-maduro-do-governo/

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