Gafe mais recente do presidente foi na 5ª feira (26.mar), quando disse que na China não há gastos com cães, diferentemente do Brasil, que “gosta muito” desses animais
Desde que assumiu o Planalto em janeiro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acumula uma série de gafes, lapsos e declarações controversas. De acordo com levantamento do Poder360, Lula protagonizou ao menos 157 declarações contendo alguma distração ou incorreção (inadvertida ou não) desde o início do 3º mandato.
Quando se analisa o que disse o presidente, 43% dos casos podem ser consideradas ofensas a pessoas, minorias sociais ou outros grupos. Outros 15% são relacionadas à política internacional, como comentários sobre a atuação de outros países e guerras –sempre expressando alguma controvérsia ou imprecisão.
Na 1ª categoria, das frases possivelmente ofensivas, a série de declarações consideradas misóginas é a mais extensa.
Em relação às mulheres, Lula acumulou uma série de falas polêmicas:
em março de 2024, disse que mulheres sem profissão dependem do pai para comprar “batom e calcinha”. Em julho de 2024, ao comentar pesquisa sobre violência doméstica depois de jogos de futebol, disse que “se o cara é corintiano, tudo bem”;
em agosto de 2024, disse que mulher sem profissão corre o risco de o “marido agredi-la”;
em outubro de 2024, afirmou que “é a mulher que sabe as coisas que têm dentro da geladeira”;
em março de 2025, chamou Gleisi Hoffmann (PT) de “mulher bonita” ao anunciar sua nomeação como ministra;
em abril de 2025, referiu-se à diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, como “uma mulherzinha”;
Já em março de 2023, declarou que o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, andava de bicicleta “por causa da obesidade”, declaração considerada gordofóbica. Em setembro do mesmo ano, disse que não seria visto de andador porque seu fotógrafo não iria filmá-lo “assim” –fala classificada como capacitista.
Sobre negros e nordestinos, em julho de 2023, agradeceu à África por “tudo o que foi produzido durante 350 anos de escravidão” –fala criticada até por apoiadores–:
Na 2ª categoria, as declarações controversas mais recorrentes são os comentários sobre conflitos e guerras. A fala de maior repercussão foi que a Ucrânia é tão culpada pela guerra quanto a Rússia, feita em abril de 2023 –avaliação desconsidera que foi Moscou que iniciou a ofensiva em fevereiro de 2022.
O petista também disse que o autoritarismo na Venezuela “é uma narrativa” e que “o conceito de democracia é relativo”.
Sobre o conflito no Oriente Médio, equiparou Israel ao Hamas, classificou as ações israelenses como “genocídio” e comparou a situação em Gaza às atrocidades de Hitler –declaração que gerou uma crise diplomática com Israel.
Os erros factuais aparecem em empate, representando 15% das declarações:
Lula afirmou que pagou juros de 2% ao ano para o agronegócio durante seus mandatos anteriores –quando a taxa mínima ficou acima de 5% ao ano em quase toda sua gestão;
disse que o iFood é da Bahia (a empresa foi fundada em São Paulo);
afirmou que 12,3 milhões de crianças morreram em Gaza (o dado real era de 12.400);
disse que as obras da transposição do Rio São Francisco vão beneficiar “13 bilhões de pessoas”, quando a população mundial é de cerca de 8 bilhões;
afirmou que, desde que saiu da presidência em 2010, o Brasil não cresceu mais de 3% –ignorando o crescimento de 4,8% registrado em 2021, no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Também se destacam os lapsos de memória e confusões:
Lula chamou o presidente francês Emmanuel Macron (Renascimento, centro) de Sarkozy, ex-presidente da França, durante um evento oficial;
em cerimônia pública, trocou o nome da atual mulher, Janja, pelo de sua 2ª mulher, Marisa Letícia, morta em 2017;
confundiu a ex-presidente Dilma Rousseff com a ex-deputada Irma Passoni;
disse ter mandato até “31 de dezembro de 2010” (o correto é 5 de janeiro de 2027);
afirmou que o Brasil faz fronteira “com toda a América do Sul” (Chile e Equador não fazem fronteira com o país);
e, ao sancionar o PL Antifacção, disse querer que o Brasil seja “um dos países mais respeitados do mundo no crime organizado”.
O petista mais derrapa nas falas quando improvisa, ignorando o roteiro oficial. Em março de 2025, a equipe de comunicação do Planalto já havia reforçado o time responsável pelos discursos –mas o efeito prático foi limitado, já que as declarações mais polêmicas costumam ocorrer exatamente nos momentos de improviso.
O Poder360 preparou cards com as frases mais controversas ditas pelo presidente nesse 3º mandato:
POR QUE ISSO IMPORTA?
Porque o Brasil tem um trauma por causa da morte de Tancredo Neves. Eleito como primeiro civil para ocupar o Planalto depois de 21 anos de ditadura militar (1964-1985), Tancredo morreu antes de tomar posse, em 21 de abril de 1985, aos 75 anos.
Outros políticos importantes tiveram problemas de saúde no cargo, como o então governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), que morreu de câncer no cargo em 2001, aos 71 anos. Outro tucano, Bruno Covas, foi reeleito prefeito de São Paulo em 2020, mas já se tratando de um câncer. Morreu menos 5 meses depois de tomar posse, em maio de 2021.
Lula tem se submetido a exames periódicos. Demonstra estar bem de saúde e seu médico pessoal, Roberto Kalil, diz que o petista está totalmente apto para exercer mais um mandato, caso seja reeleito.
Ocorre que a saúde do presidente será um tema incontornável durante a campanha. O exemplo mais vívido e recente será o que se passou com o ex-presidente dos Estados Unidos, o democrata Joe Biden. Biden protagonizou uma série de episódios em que demostrava estar com a memória cansada e o raciocínio menos afiado do que no passado. Em 2023, já havia muitos sinais. O momento mais dramático foi num debate em que enfrentou o republicano Donald Trump, em 27 de junho de 2024. O democrata gaguejou e cometeu algumas gafes. Logo depois, renunciou à disputa. Biden tinha 81 anos, exatamente a mesma idade que Lula terá em outubro, o mês da eleição.
Nada indica, nem de longe, que Lula esteja num estado parecido ao de Joe Biden em 2024. Numa campanha que deve ser marcada pelo baixo nível do debate, como tem sido no Brasil, o petista corre o risco de ter mais essa frente de críticas para combater. Mesmo saudável, terá de enfatizar de maneira recorrente que sua saúde está em dia. Tudo isso em meio a uma disputa que tende ser muito apertada. Pesquisas recentes mostram uma situação de empate técnico em cenário de 2º turno do petista contra o principal pré-candidato de oposição, Flávio Bolsonaro (PL).
Tudo o que Lula não precisa neste momento é que sejam levantadas dúvidas sobre sua capacidade física de concorrer a mais um mandato. Seus lapsos e frases controversas em discursos recentes não ajudam.