Dara Khosrowshahi afirma que desempenho do país é “incrivelmente animador”; no Brasil, espera que lei mantenha flexibilidade
O CEO global da Uber, Dara Khosrowshahi, 56 anos, disse que as reformas do governo do presidente da Argentina, Javier Milei (La Libertad Avanza, direita), têm em resultado perspectivas favoráveis de crescimento econômico. Em fevereiro, o Congresso do país aprovou mudanças na legislação trabalhista.
“O crescimento que vemos na Argentina é incrivelmente animador”, afirmou Khosrowshahi (pronuncia-se “kós-rou-chárri”). Ele deu entrevista ao Poder360 na 4ª feira (18.mar.2026) depois de participar de uma conversa com motoristas da Uber na cidade.
Assista à entrevista (21min5s):
A Uber tem planos de investimentos de US$ 500 milhões (R$ 2,7 bilhões) na Argentina nos próximos anos. Pretende lançar a plataforma Uber Eats para entrega de comida. Não há planos comparáveis no caso do Brasil. Khosrowshahi não fez comparações entre os 2 países.
A Uber anunciou investimentos de R$ 2 bilhões a partir de 2018 ao longo de vários anos. Parte disso foi para a implantação de um centro de tecnologia em São Paulo. O centro está atualmente em expansão. Um novo centro está sendo construído no Rio. O Brasil é líder global em número de viagens e a empresa começa a investir em serviços financeiros por meio de fintechs no país.
A Câmara deverá votar em abril de 2026 o projeto de lei que regulamenta o trabalho de entregadores e motoristas de aplicativo.
Khosrowshahi disse defender o estabelecimento de proteção social, mas sem que se impeça a flexibilidade. “Acho que, ao combinar direitos e proteções sociais com autonomia, podemos chegar a um resultado ganha-ganha”, afirmou.
Khosrowshahi é o CEO global da Uber desde 2017. A receita operacional foi US$ 34,4 bilhões naquele ano. Atingiu US$ 193,45 bilhões em 2025. Declarou que, além do lucro, o objetivo da Uber é transformar a sociedade com inovação nos serviços e ampliação das oportunidades de renda. “O trabalho que fazemos na Uber é muito impactante”, afirmou.
Khosrowshahi nasceu em Teerã em 1969. Mudou-se com a família para os EUA em 1978. No ano seguinte, uma revolução derrubou a monarquia e implantou a república islâmica.
Disse que as mortes com os ataques do EUA ao Irã são “trágicas”. Espera que possam resultar na mudança no comando do país. “O atual regime iraniano, que está no poder há 47 anos, não serviu bem ao povo”, afirmou.
Chefe exigente, manda e-mails para integrantes da equipe no fim de semana e espera que sejam respondidos rapidamente. Disse que quem entra na empresa conhece o sistema de trabalho.
Eis a íntegra da entrevista:
Poder360 – O que mudou na Uber desde que senhor se tornou CEO?
Dara Khosrowshahi – Muita coisa mudou. A única coisa constante na Uber é a mudança. Somos uma empresa que age rapidamente. Tenho muito orgulho do que conquistamos. Desde que me tornei CEO, em 2017, o faturamento da empresa com operações aumentou mais de 5 vezes. Antes, éramos principalmente um provedor de mobilidade, levando pessoas para lugares. Construímos um negócio de entregas muito grande no Uber Eats. Infelizmente, não está no Brasil, Mas estamos em muitos lugares ao redor do mundo. Nosso negócio de mobilidade e entrega é quase igual em tamanho.
Agora somos muito lucrativos. Abrimos capital com uma capitalização de mercado superior a US$ 100 bilhões. Mas temos muito pela frente em termos do potencial, da tecnologia que queremos construir e do número de motoristas e entregadores que queremos trazer para a plataforma em nível global. Atualmente, mais de 9 milhões de pessoas têm renda flexível em nossa plataforma. Esperamos que, com o tempo, continuemos a expandir o negócio, tanto para os passageiros e para quem compra comida quanto para as pessoas que ganham dinheiro.
Por que o senhor está no Brasil?
Porque o Brasil é um país incrivelmente importante para nós. Em termos de volume de viagens, o Brasil é o maior país para nós globalmente, incluindo os EUA. É um dos 5 principais países em termos de dólares gastos. Estamos construindo uma quantidade significativa de inovação aqui no Brasil. Estabelecemos um centro de tecnologia. Começamos em São Paulo. Agora estamos expandindo no Rio para que tenhamos engenheiros no local. Estão pegando algumas das ideias de nossas equipes no Brasil e construindo algo não apenas para o mercado brasileiro, mas também para o mercado global.
Especificamente sobre o Uber Eats, por que não está no Brasil atualmente?
Decidimos, depois da pandemia, sair do Brasil no que diz respeito ao Uber Eats. Temos uma aliança com o iFood. Estamos trabalhando juntos para permitir que clientes da Uber usem o iFood e vice-versa. Achamos que, no Brasil, a aliança fazia sentido do ponto de vista comercial. O foco para nós no Brasil é desenvolver o negócio de mobilidade, que continua crescendo em ritmo muito alto.
Como a Uber vai ser nos próximos anos?
Acho que nosso foco agora para a Uber é continuar a fazer o negócio crescer. Mais de 2 milhões de pessoas dirigem para a Uber só no Brasil, com veículos de 4 rodas e de duas rodas. Estimamos que cerca de 85% da população brasileira tenha usado nossos serviços de uma forma ou de outra. Continuamos crescendo. O foco do crescimento está fora dos centros urbanos. Está, por exemplo, no norte do país, expandindo a presença do [transporte sobre] duas rodas e melhorando o acesso do serviço para todos.
O transporte público no Brasil não está disponível para todos. Existem alguns desertos de transporte. O acesso ao transporte a um custo justo e acessível é algo muito importante para nós. E, embora tenhamos crescido rapidamente no Brasil e estejamos em todo o país, acreditamos que podemos continuar a melhorar o acesso. Ao mesmo tempo, há muita tecnologia interessante sendo introduzida. Carros autônomos estão se tornando cada vez mais uma realidade em várias cidades nos EUA e no Oriente Médio. Isso fará parte do futuro no Brasil também. Mas acho que vai demorar alguns anos.
Outra área que nos entusiasma bastante é o que chamamos de veículos de decolagem e pouso verticais. É um helicóptero da próxima geração. Temos um parceiro maravilhoso chamado Joby Aviation, no qual fazemos investimentos. O tráfego em alguns lugares do Brasil, como em São Paulo, pode ser bastante difícil. Uma forma de aliviar o trânsito é usar o céu em vez de usar só as ruas.
Quanto tempo vai demorar para isso se tornar realidade?
Ambas as tecnologias são realidade hoje. Há carros autônomos na rede da Uber em Austin, Houston e Abu Dhabi. Esperamos ter esses veículos de decolagem e pouso verticais operacionais no Oriente Médio talvez neste ano ou certamente no próximo. Mas escalar essas tecnologias vai levar tempo. Estão muito no início do desenvolvimento. Esses veículos são bastante caros. Queremos garantir que sejam seguros acima de tudo e, ao longo do tempo, à medida em que as curvas de custo diminuam, oferecer também para o cliente da Uber.
Há um número crescente de empresas oferecendo os mesmos serviços da Uber. Como o senhor mantém seus clientes?
O segredo é nunca ficar satisfeito e oferecer um serviço excelente aos nossos clientes. A mobilidade, a entrega de comida ou de mantimentos, são, separadamente, mercados de mais de um trilhão de dólares. A competição continua sendo um fator importante aqui no Brasil e em cada um dos mais de 70 países onde operamos. Mas, para nós, o que realmente importa é ficar muito próximo do cliente.
Eu me encontrei hoje com um grupo de motoristas aqui em Brasília. Não foi dito a eles que eu era o CEO global. Fiquei como um dos espectadores na plateia. No final da conversa, foi dito quem eu era. Em todo lugar que eu vou, quero ouvir os motoristas: quais são as preocupações deles, o que eles gostam na plataforma. Há muito do que gostar, mas também há muitas maneiras pelas quais eles acreditam que a plataforma pode melhorar. Quero ouvir diretamente deles para que, quando eu voltar para São Francisco e conversar com as equipes de produto e tecnologia, possamos continuar construindo e melhorando o serviço para motoristas e passageiros.
O segredo para mim é nunca ficar satisfeito e sempre ouvir o cliente. Depois, construir para ele. Existem empresas que cometem o erro de construir para si mesmas. Nossa filosofia é que, se construímos para o cliente, seja para o passageiro, um restaurante, para quem entregamos ou para os motoristas, o negócio também se beneficiará com o tempo. Mas você precisa manter o cliente como sua área de foco.
Como a IA está sendo usada atualmente na Uber e como será usada no futuro?
A IA faz parte de como operamos há muitos anos. São algoritmos de IA que decidem a qual motorista você vai se conectar. São algoritmos de IA que precificam o serviço. Se houver muitos motoristas disponíveis no meio do dia, os preços serão menores. Se for tarde da noite e houver menos motoristas disponíveis, então precisaremos pagar mais para que alguém possa te buscar. Tudo isso é determinado por algoritmos de IA.
O que está acontecendo com a IA agora é que a capacidade de computação e o tamanho desses modelos estão ficando muito maiores. Passou-se de modelos com tarefas muito específicas para outros que conseguem até raciocinar por meio de múltiplas iterações e tarefas. Estamos constantemente melhorando nossos algoritmos de precificação, nossos algoritmos de correspondência. A IA vai desempenhar um papel cada vez maior em termos da produtividade dos desenvolvedores.
Uma porcentagem crescente da nossa base de código é escrita por IA. Engenheiros agora vão passar de escrever código especificamente para serem coaches. É uma transição muito interessante pela qual estamos passando.
Você verá a inteligência artificial desempenhar um papel cada vez maior em partes do nosso serviço, por exemplo no atendimento ao cliente. Obviamente, as coisas podem dar errado. Às vezes, uma entrega pode ser cancelada ou uma tarifa pode sair errada. Usamos nossos agentes de atendimento para trabalhar com os clientes e resolver essas questões. Cada vez mais, esses problemas podem ser resolvidos pela IA. A sofisticação desses algoritmos permite não só economizar, mas também melhorar o nível de serviço. A IA podem raciocinar por meio de uma quantidade de dados muito maior e encontrar a solução perfeita para cada pessoa.
Há um projeto de lei no Congresso que estabelece alguns benefícios para motoristas. Qual sua avaliação sobre isso?
Acreditamos em leis ou projetos de lei que oferecem proteções sociais para motoristas ou padrões mínimos de ganho, ao mesmo tempo em que reconhecem a autonomia e a flexibilidade dos motoristas. Esses motoristas com quem eu estava antes, todos falaram em ser o próprio chefe. Eles tinham um emprego em tempo integral.
O principal recurso da plataforma Uber é dirigir do jeito que quiser, quando quiser, nos próprios termos. Cada um tem sua estratégia. Alguns adoram dirigir à noite, outros dirigem cedo, depois levam os filhos para a escola. Cada tem uma história, uma forma diferente de usar nossa plataforma.
A chave em relação a qualquer tipo de legislação é o equilíbrio e a inclusão de proteções e direitos para os motoristas com o reconhecimento e a manutenção da flexibilidade e autonomia. Estamos mantendo discussões construtivas com o governo e esperamos chegar a um bom resultado.
A Argentina aprovou recentemente uma lei trabalhista que também cobre motoristas de aplicativos. É melhor ou pior do que o projeto que se discute no Brasil?
A legislação brasileira não é final. Acho que, ao combinar esses direitos e proteções sociais com autonomia, podemos chegar a um resultado ganha-ganha.
Quais são os planos de investimento da Uber no Brasil?
Nossos planos de investimento são significativos. Planejamos investir mais de R$ 2 bilhões no nosso centro de tecnologia, aumentando número de engenheiros em São Paulo e abrindo um novo centro de tecnologia no Rio, para que possamos construir tecnologia baseada nas ideias que temos aqui e expandir globalmente. Continuaremos investindo na expansão, tornando nosso serviço mais acessível para mais pessoas em todo o país.
Quais são seus planos de investimento na Argentina ou talvez em outros países do mundo?
A Argentina é um dos países mais promissores em que atuamos. As reformas do presidente Milei realmente abriram o país. O crescimento que vemos na Argentina é incrivelmente animador. Falamos sobre um investimento de mais de US$ 500 milhões na Argentina, lançando o Uber Eats com nosso negócio de mobilidade. A América do Sul, América Latina, é uma parte muito importante do mundo para nós.
Existe algo particular do Brasil ou de outros países da América Latina em comparação com outras partes do mundo?
Uma das áreas-chave em que começamos a focar, como resultado das contribuições que recebemos, foi a segurança dos motoristas: verificar passageiros e motoristas, garantir que toda a documentação de ambos seja correta. Há algumas inovações. Por exemplo, em relação aos motoristas: para onde eles vão, em que período da noite. Os motoristas podem decidir se há uma área que querem evitar. Quando conversei com motoristas, cada um tinha sua própria estratégia e usava as ferramentas que oferecemos de maneiras diferentes.
Serviços financeiros são outra área muito forte. Há uma enorme quantidade de inovação acontecendo em fintechs no Brasil. Um dos especialistas do nosso grupo de engenharia no Brasil também é fintech. E estamos construindo muitos serviços, fazendo empréstimos para motoristas que precisam de ajuda com a parcela do carro ou a gasolina, ou para restaurantes e comerciantes. O foco fintech para nós está começando no Brasil.
O senhor é visto como um chefe muito exigente. Como seus funcionários reagem a isso?
A cultura na Uber muda rapidamente. Quando entrei na empresa, em 2017, ela estava passando por desafios reais. A menos que tivéssemos mobilizado todo mundo, nos movimentado muito rapidamente e trabalhado duro, não teríamos passado por esses momentos. A empresa perdia US$ 2 bilhões todos os anos. Teríamos ficado sem financiamento. A equipe nos colocou na posição lucrativa em que estamos agora. Sou um chefe exigente, mas essa é uma área exigente, muito competitiva. Somos o melhor jogador do pelotão. Há muitos competidores tentando nos ultrapassar. A menos que sejamos rápidos e exigentes com nós mesmos, não seremos os vencedores.
Somos muito claros com nossos funcionários quando eles vêm para a Uber. É um lugar onde você pode ter uma carreira, mas é um lugar onde você vai trabalhar duro. Acho que há um sentimento profundo de satisfação em relação a isso. O trabalho que fazemos na Uber é muito impactante. Não somos apenas uma empresa digital. Temos mais de 9 milhões de pessoas conseguindo renda na plataforma de forma flexível, algumas em tempo integral, outras em meio período.
Na manhã de hoje, conversei com uma motorista que começou a dirigir um Uber quando se divorciou. Precisava de renda para passar por esse momento difícil. A Uber permitiu que ela ficasse com sua casa e tivesse uma nova vida. Esse impacto que temos na vida real é bastante motivador. Talvez isso me permita ser um chefe exigente com a equipe.
O senhor nasceu em Teerã e sua família teve que fugir para os Estados Unidos. Qual é a sua avaliação dos eventos atuais no Irã?
Acho que os acontecimentos atuais são muito difíceis. Eu estou muito dividido. A perda de vidas no Irã é trágica. A infraestrutura que está sendo atingida é algo de que o povo iraniano depende para viver. É muito difícil ler sobre isso, ver as imagens. Ao mesmo tempo, acho que o atual regime iraniano, que está no poder há 47 anos, não serviu bem ao povo.
O Irã é um país com uma história profunda, cultura incrível, talento incrível, tanto técnico quanto no que diz respeito às artes e humanidades. O país merece fazer parte do mundo e da ordem política em vez de ser o pária que acho que o regime islâmico fez dele.
Então, por um lado a perda de vidas e a violência lá é profundamente perturbadora. Por outro lado, a perspectiva de um novo regime que realmente sirva ao povo do Irã, e não ao próprio regime, que reintroduza o Irã no ecossistema mundial, seria um resultado maravilhoso.