Darragh O’Brien, afirma que cooperação nas negociações climáticas e na pesquisa ambiental vai favorecer a relação econômica dos 2 países
O Brasil e a Irlanda podem ter relações econômicas mais fortes com a sustentabilidade, disse Darragh O’Brien, 51 anos. Ele é ministro do Clima, Energia e Meio Ambiente da Irlanda. Também é ministro dos Transportes.
O’Brien fez uma visita de 6 dias ao Brasil encerrada na 4ª feira (11.mar.2026). Esteve em São Paulo, Rio e Brasília. Na avaliação do ministro, é possível estabelecer parcerias comerciais a partir da cooperação nas pesquisas de combustíveis sustentáveis.
“O Brasil será um produtor muito relevante de SAF [combustível sustentável de aviação, na sigla em inglês]”, disse em entrevista na 2ª feira (9.mar). Ele é do partido Fianna Fáil, de centro-direita.
Assista à entrevista 26min18s
O’Brien teve reuniões com os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores), Marina Silva (Meio Ambiente) e Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos). A Irlanda pretende estabelecer com o Brasil um acordo que permita voos diretos entre Dublin, capital da Irlanda, e Guarulhos (SP)
O’Brien também participou de comemorações alusivas ao Dia de São Patrício, data nacional da Irlanda, que será na 3ª feira (17.mar). O Cristo Redentor, no Rio, foi iluminado de verde no sábado (7.mar). Em Brasília, a catedral e o estádio Mané Garrincha, foram iluminados no domingo (8.mar).
A Irlanda votou contra o acordo UE-Mercosul em janeiro. O acordo foi assinado, mas a decisão será julgada pelo Tribunal de Justiça do bloco europeu.
O’Brien disse que a Irlanda é um país que depende do livre comércio e que o acordo será positivo. “Há preocupações dos agricultores irlandeses que eu compreendo. Mas eu realmente acredito que algumas das preocupações que as pessoas tinham antes não se confirmam pela realidade”, afirmou.
O ministro participou da COP30 (30ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Cilma). Avalia que as COPs precisam ser feitas todos os anos, mas que acordos podem ser feitos só a cada 2 ou 3 anos.
Abaixo, trechos da entrevista.
Poder360 – Que tipo de cooperação é possível entre Brasil e Irlanda?
Darragh O’Brien – Estive em São Paulo, no Rio e agora estou em Brasília. Conheci muitas pessoas em nível político também em nível empresarial. Uma das nossas prioridades é abrir uma rota aérea direta entre Irlanda e Brasil. Temos mais de 80.000 brasileiros vivendo na Irlanda. É uma parte fantástica da nossa sociedade e da nossa população. É o 3º maior número de brasileiros em toda a Europa. Um voo direto de Dublin para Guarulhos seria importante para negócios e por razões sociais. Dublin é um aeroporto muito bem conectado. É o 5º aeroporto com melhor conexão na Europa.
No lado do clima, há uma boa colaboração, com compartilhamento de informações. Acho que há oportunidades em coisas como combustível de aviação sustentável. A Irlanda está liderando na pesquisa sobre isso. O Brasil será um produtor muito relevante de SAF [combustível sustentável de aviação, na sigla em inglês].
Há negócios de cerca de € 2 bilhões anuais entre Irlanda e Brasil. Acho que podemos crescer muito, especialmente em transportes e energia limpa. O Brasil tem se saído muito bem com etanol. A Irlanda está indo bem com energia solar e eólica. Está sendo uma visita muito boa. É minha 2ª visita ao Brasil.
O senhor esteve em Belém para a COP30. Houve frustração com a falta de avanço sobre combustíveis fósseis. Qual sua avaliação da COP30?
Dou os parabéns à presidência brasileira. Fizeram um excelentetrabalho em uma negociação muito difícil. O mais importante é que conseguimos um acordo. Para ser honesto, fiquei decepcionado com algumas partes, especialmente com o fato de não termos conseguido concordar, no texto final, quanto à meta de eliminação gradual dos combustíveis fósseis. Estamos comprometidos com isso na Irlanda. Fomos um dos 81 países que estavam comprometidos com a presidência brasileira
Mas a presidência da COP conseguiu fazer algo bastante relevante, o roteiro pós-COP. Isso nos dá algo para trabalhar. Todos nós estamos preocupados com a mudança climática.
Há pessoas que negam a mudança climática. É a maior ameaça que este mundo enfrenta. A expectativa é de cerca de 2,3° C de aquecimento. Isso é bem acima de 1,5º C [limite proposto pelo Acordo de Paris]. Pode ser irreversível e catastrófico para as futuras gerações.
Países como Irlanda e Brasil trabalharam muito bem em medidas climáticas. Precisamos começar a construir essas alianças agora. Quem assiste a esta entrevista pode dizer: a Irlanda é um país muito pequeno na Europa. Mas a Irlanda deverá ter a presidência da União Europeia na próxima COP. A partir de julho deste ano, negociarei em nome da Europa.
Em 2º lugar, a Irlanda é um país muito bem-sucedido em relação à sua economia. Temos uma grande diáspora ao redor do mundo e um grande alcance. Em certos setores, como aviação, somos líderes mundiais. Somos líderes em renováveis.
Valorizamos amigos como o Brasil. Esse relacionamento tem sido excelente. Minha visita aqui decorre da visita do nosso primeiro-ministro [Micheál Martin, Finna Fáil, centro-direita] em novembro de 2025. Foi a 1ª visita de um primeiro-ministro ao Brasil. O ministro Mauro Vieira visitou Dublin em novembro passado.
Construímos nossa equipe aqui, com nosso excelente embaixador Martin Gallagher e sua equipe. Acho que o Brasil pode uma âncora para a Irlanda, na América do Sul.
A COP31 neste ano, será na Turquia, mas a Austrália será responsável pelas negociações. O que o senhor espera?
Acho que a Europa e a União Europeia precisam estar mais bem preparadas.
Precisamos nos envolver com nações amigas e parceiros como Brasil, Colômbia, Nova Zelândia, Austrália e outros para construir uma aliança.
Precisamos focar nas áreas em que podemos fazer as mudanças mais impactantes. Um exemplo é a preservação e restauração da natureza. O Brasil é um ótimo exemplo disso.
Sobre adaptação climática, houve consenso na COP. Mas a mitigação também é importante. Alguns dos países em desenvolvimento estão bastante frustrados com a dificuldade de acessar o financiamento climático. Se você conversar com Estados em desenvolvimento, especialmente nações insulares, às vezes é difícil que encontrem acesso ao financiamento.
A Europa é o maior contribuinte para financiamento. Precisamos garantir praticidade na forma como distribuímos esses fundos para ca0usar o melhor impacto. Os mais afetados pelas mudanças climáticas precisam ser os primeiros na fila para receber a assistência de que precisam.
Gostaria que a COP31 na Turquia, que eles recebem em nome dos australianos, gostaria, fosse mais prática e voltada para a ação.
Precisamos ver as coisas do ponto de vista de outras pessoas também, especialmente do Sul Global e do mundo em desenvolvimento. Acho que a Irlanda está talvez em uma posição única para isso.
Historicamente, a Irlanda entende algumas das questões de Estados em desenvolvimento como a colonização, a exploração de recursos naturais de um país maior em detrimento de outro. A Irlanda já experimentou isso, e nossa história nos acompanha.
O sistema de COPs funciona?
Acho que é necessário analisar como isso funciona. A reunião anual é muito importante porque une as pessoas. O único outro órgão que faz isso é a ONU [Organização das Nações Unidas].
É importante que as pessoas se encontrem, mesmo que não concordem. Uma discussão que precisa acontecer é se é preciso haver um acordo em toda COP. Ou se deve ser um acordo a cada 2ª ou 3ª COP. Essa ainda não é a posição do governo irlandês. É a minha opinião. Isso precisa ser seriamente analisado.
Acho que foi muito impressionante a COP em Belém por causa da localização, da forma como foi gerenciada. Foi muito real, no chão.
A decisão do governo brasileiro de sediá-la lá foi muito corajosa. Houve delegações de países que ficaram com famílias brasileiras, em áreas que estão se desenvolvendo.
Foi muito importante estar na região amazônica, que todos soubessem que estavam na Amazônia. Foi uma jogada muito inteligente e muito bem-vinda da presidência brasileira.
O que será a consequência da retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris por decisão do presidente Donald Trump?
Temos que respeitar o fato de que Trump é o presidente eleito. Seu governo tomou uma decisão que lamentamos.
Já trabalhei com colegas nos Estados Unidos. Como disse antes, a mudança climática é real. Quem diz que não é não está dizendo a verdade. Você pode ter uma posição diferente. Não dá para ter fatos diferentes.
Respeitamos o governo, mas também há ciclos eleitorais. Diferentes governos entram. Para sermos justos com os Estados Unidos, eles são muito fortes na sustentabilidade do preparo de alimentos. É uma grande prioridade para eles. Vamos olhar para as áreas em que podemos concordar e trabalhar.
A Europa planeja reduzir em 90% as emissões de gases do efeito estufa até 2040 em comparação com 1990, com 5% de corte adicional por meio de crédito de carbono. O senhor acha que o Brasil pode aproveitar isso para vender créditos de carbono para a União Europeia?
O que me deixou impressionado nesta minha 2ª visita ao Brasil foi conhecer algumas das tecnologias de ponta e novos processos que estão sendo usados para combustíveis renováveis.
Nossa prioridade na Europa é continuar reduzindo nossas emissões. Ponto final. Nós, como bloco, alcançaremos nossas metas para 2030.
Na Irlanda, estamos fazendo avanços muito significativos. Cerca de 41% da nossa eletricidade até o final de 2024 foi gerada por fontes renováveis. Isso será de 60% a 70% até 2030. Nossa meta era 80%. Mas, no início da década de 2030, teremos muitas usinas eólicas offshore em início de construção.
Voltando à sua pergunta, a flexibilidades da União Europeia permitirá oferecer oportunidades para o Brasil e empresas brasileiras oferecendo crédito de carbono.
Mercosul e União Europeia chegaram a um acordo de livre comércio em janeiro de 2026. Ainda depende da decisão do judiciário da União Europeia. Muitos agricultores, na Europa, inclusive na Irlanda, são contra esse acordo. Qual será o resultado?
A Irlanda depende de livre comércio. Somos uma nação de comércio aberto, que tem uma economia muito diversa. Não é só a agricultura importante, também tecnologia, serviços financeiros, indústria farmacêutica, muitas coisas diferentes.
A União Europeia concordou. O Congresso brasileiro recentemente o aprovou. Há preocupações dos agricultores irlandeses que eu compreendo.
Mas eu realmente acredito que algumas das preocupações que as pessoas tinham antes não se confirmam pela realidade.
Somos uma grande nação produtora agrícola. Fazemos produtos agrícolas de muito boa qualidade. Mais de 80% do que produzimos, exportamos. Precisamos de mercados para isso. Precisamos diversificar nossos mercados também.
Acho que tudo será resolvido. Houve algumas mudanças e flexibilidades no acordo do Mercosul. Na época [em janeiro], foi tomada a decisão de não apoiá-lo. Mas a Irlanda trabalhará com o Mercosul, conforme acordado com a União Europeia e com os países relevantes da América do Sul.
Acho que as pessoas vão olhar para trás nos próximos anos e dizer que foi um passo muito significativo e importante nas relações comerciais. Parece-me razoável que a maior parte do acordo possa entrar em vigor ainda neste ano.
A Irlanda tem uma relação especial com a Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido. A Irlanda faz parte da União Europeia. Não é mais o caso do Reino Unido. Como esse relacionamento funciona agora?
É uma relação complexa. A Irlanda é só uma. Aquela parte da nossa ilha após nossa independência foi separada. A Grã-Bretanha tem poderes administrativos sobre o norte da Irlanda.
Concluímos um acordo de paz há mais de 25 anos, o governo irlandês e o governo britânico são garantidores do acordo na Irlanda do Norte. Cidadãos na Irlanda do Norte podem ter cidadania irlandesa, britânica ou ambas.
A União Europeia, após o Brexit, foi muito favorável à Irlanda para garantir que o norte da Irlanda fosse tratado como a República da Irlanda no comércio. Mas é mais do que comércio. Trata-se realmente de sustentar um acordo de paz que está em vigor e enraizado.
Tivemos uma guerra brutal no norte da Irlanda. Houve 800 anos de guerras contra a Grã-Bretanha. Eles são nossos vizinhos mais próximos. Não fazem mais parte da União Europeia. Não são mais nosso maior parceiro comercial. Ainda são importantes. Nós também somos importantes para eles.
Então não é uma relação de irmão mais velho com irmão mais novo. É um relacionamento de iguais. E acho que estamos comprometidos, como garantidores. Fomos apoiados pelos Estados Unidos, por administrações anteriores dos Estados Unidos, que foram muito importantes para esse acordo de paz.
O transporte e a circulação de pessoas funcionam como antes do Brexit?
Sim. Funcionam. Na ilha da Irlanda, não há fronteiras físicas. Nenhuma. Todos podem se mover e se relacionar com qualquer outra pessoa.
Isso foi complexo e difícil. Eu preferiria que a Grã-Bretanha não tivesse saído da União Europeia. Mas eles decidiram sair. Respeitamos isso.
O quadro de Windsor, como é chamado pós-Brexit, está funcionando muito bem. [O Brexit] é um exemplo de que, quando há livre comércio e um país decide não ter livre comércio. Se você olhar para como a economia na Grã-Bretanha está funcionando, muitos diriam que é por causa do Brexit.
Divulgação – 8.mar.2026
A catedral de Brasília com iluminação verde em homenagem ao Dia de São Patricio, da nacional da Irlanda