Deepfakes perpetuam violência contra mulheres, diz relatora da ONU

Reem Alsalem, relatora sobre violência contra mulheres e meninas, afirma em entrevista ao Poder360 que plataformas digitais precisam ter mais líderes femininas em posições de chefia para reduzir misoginia

A relatora especial da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, afirma que imagens falsas ultrarrealistas feitas geralmente por inteligência artificial, as chamadas deepfakes, ajudam a perpetuar a misoginia no ambiente virtual. Para ela, o aumento do conteúdo pornográfico publicado e das ameaças contra mulheres mantém a internet como uma “espaço hostil”. De acordo com a especialista, a falta de regulação e o interesse econômico das plataformas perpetuam a violência de gênero virtual.

Em entrevista ao Poder360, Alsalem diz que as tecnologias digitais ampliaram a escala e a intensidade de práticas de assédio e exploração direcionadas principalmente a mulheres e meninas. De acordo com ela, o conteúdo “alimenta estereótipos sexistas e tenta enganar as mulheres com essa ideia de que você tem que concordar com ser sexualizada, vender seu corpo”.

Assista à íntegra da entrevista, gravada em 3 de março no estúdio do Poder360 em Brasília: 

Alsalem esteve no Brasil na semana passada para participar de um evento na UnB (Universidade de Brasília) e para participar de uma sessão na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Sua visita ao país foi extraoficial. Ela tentou contato com alguns órgãos do governo, como o Ministério das Mulheres, mas não obteve resposta.

Outro problema identificado foi o compartilhamento de imagens íntimas sem consentimento –que muitas vezes, são produzidas por aplicativos de IA. A tecnologia tem sido utilizada para inserir, sem autorização, o rosto de mulheres reais em conteúdos pornográficos

Em alguns casos, parceiros ou ex-parceiros divulgam o material como vingança depois do término de relacionamentos. Em outras situações, as imagens são disseminadas para atacar ou constranger mulheres com visibilidade pública.

A relatora disse que as mulheres ainda enfrentam desigualdades no acesso às tecnologias digitais em diversas partes do mundo. Mesmo quando presentes nesses espaços, raramente ocupam posições de liderança nas empresas e instituições que definem regras, políticas e o funcionamento dos algoritmos.

“Precisamos ter mais mulheres na estrutura de governança [das redes sociais] porque no conteúdo, na criação do conteúdo, a perspectiva de mulheres e garotas está faltando, e isso tem que mudar”, afirma Alsalem.

De acordo com ela, poucos países possuem legislação eficaz para lidar com a violência de gênero online. Em muitos casos, não existem regras claras que obriguem plataformas digitais a remover rapidamente conteúdos ilegais ou prevenir a circulação de material não autorizado.

“A questão de acesso, verificação de idade para acesso a materiais sexuais é uma grande questão. Agora, alguns países estão dando passos. Mas manter os perpetuadores acusados é mais difícil online, porque você nem sempre sabe com quem está lidando”, disse a representante.

A relatora defende que os Estados imponham padrões mais rígidos às empresas de tecnologia. Ela também enfatiza a necessidade de garantir a aplicação efetiva das leis existentes.

Feminicídio é desafio global

Na entrevista, Alsalem afirmou que enfrentar o feminicídio é um desafio global e não há nenhum país que tenha conseguido controlar esse tipo de crime.

“Quando falamos de feminicídio, falamos sobre ser uma emergência global em níveis pandêmicos”, disse.

De acordo com dados da ONU, 83.000 mulheres foram mortas por serem mulheres. Dessas, 50.000 foram mortas por pessoas que elas conheciam. “E isso é apenas uma fração da realidade porque, como você sabe, a maioria delas não é reportada, não é registrada”, disse.

A relatora afirma que há uma falha dos governos em conseguir dar proteção efetiva às mulheres. E diz que não há investimentos necessários para operacionalizar os mecanismos de defesa.

Alsalem afirma também que a coleta de dados sobre os episódios de violência é imprescindível para o desenvolvimento de políticas públicas efetivas.

“O que vejo mundialmente é que governos estão adotando mais medidas de austeridade. Então há esse aumento da militarização. A crise [geopolítica] está aumentando. Mas isso também significa que o dinheiro para enfrentar a violência de gênero. Mas também para atender às necessidades de outros grupos vulneráveis, sejam as pessoas com deficiência, sejam os idosos, é cada vez menor. E é cada vez menor também para organizações femininas, políticas específicas para mulheres”, disse.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-internacional/relatora-da-onu-diz-que-deepfakes-e-onlyfans-perpetuam-violencia-contra-mulheres/

Deixe um comentário