Impasse sobre ICE pode causar novo shutdown no Trump 2

Senado norte-americano tem até 23h59 de 6ª feira (30.jan) para aprovar pacote orçamentário e evitar a 2ª paralisação do governo neste mandato de Donald Trump

Um impasse entre republicanos e democratas sobre o financiamento do ICE (Serviço de Imigração e Controle Alfandegário) pode resultar em uma nova paralisação parcial do governo dos Estados Unidos. A legislação sobre o financiamento do DHS (Departamento de Segurança Interna) já passou na Câmara dos Representantes, mas senadores democratas manifestaram que tentarão barrar o financiamento do ICE.

O Legislativo norte-americano tem até 23h59 de 6ª feira (30.jan.2026), pelo horário local, para aprovar o projeto de lei antes de ser decretado o shutdown, que entraria em vigor a partir de 0h de sábado (31.jan) –pelo horário de Brasília, o prazo é até as 2h. Caso os congressistas não cheguem a um acordo, esta será a 4ª paralisação sob gestão de Donald Trump (Partido Republicano) e a 2ª neste novo mandato. Trump é o presidente dos EUA que ficou mais dias consecutivos governando sem orçamento. O recorde foi em 2025, quando foram 43 dias de paralisação. 

O embate gira em torno de como financiar o DHS –departamento que abriga o ICE– em um pacote de 6 projetos de gastos que será analisado no plenário do Senado. A liderança democrata na Casa Alta declara que não dará os votos necessários para destravar a tramitação enquanto o pacote mantiver a verba do DHS/ICE sem mudanças. 

O procedimento no Senado exige 60 dos 100 votos para avançar. Com isso, os republicanos, mesmo com maioria, dependem de uma parcela dos democratas para evitar que o texto trave e o prazo estoure.

O endurecimento da posição democrata ganhou força depois da morte de um civil norte-americano durante operação do ICE em Minneapolis no sábado (24.jan). O enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, foi baleado por agentes da agência somente 2 dias depois de a Câmara ter aprovado, por margem apertada, o pacote orçamentário do Departamento de Segurança Interna. 

Na ocasião, o líder dos democratas no Senado, Chuck Schumer, declarou em publicação no X que o partido não vai fornecer os votos necessários para aprovar o projeto de lei de dotações.

Segundo o jornal Politico, apesar da pressão democrata, a liderança republicana no Senado pretende manter o cronograma e levar adiante o pacote de projetos incluindo o financiamento do DHS e da ICE. 

Republicanos e a Casa Branca teriam entrado em contato com democratas para discutir uma saída. Mas uma pessoa ligada à oposição e familiarizada com as discussões declarou ao jornal que os interlocutores não apresentaram “soluções realistas”. 

A contraproposta do Partido Democrata aos republicanos seria uma versão do pacote orçamentário que não contasse com a porção destinada ao DHS. Essa versão do projeto de lei voltou a ser defendida por Chuck Schumer no plenário de 4ª feira (28.jan). 

“Deixe-me repetir isso para que a Casa Branca me escute: até que o ICE seja devidamente contido e reformado, do ponto de vista legislativo, o projeto de financiamento do DHS não tem votos suficientes para ser aprovado no Senado”, disse. O movimento sugerido pelo senador exigiria a aprovação de um novo projeto de lei na Câmara dos Representantes. 

A expectativa é que o Senado analise o pacote orçamentário nesta 5ª feira (29.jan.2026), mas as votações devem se estender. Um shutdown parcial afetaria, além do Departamento de Segurança Interna, uma série de departamentos e agências do governo norte-americano. Dentre eles, estão:

Departamentos de Defesa;
Departamento do Tesouro
Departamento de Estado;
Departamento de Saúde e Serviços Humanos;
Departamento de Trabalho, Habitação e Desenvolvimento Urbano;
Departamento de Transportes;
Departamento de Educação. 

Estes órgãos seriam obrigados a afastar funcionários “não essenciais” temporariamente, enquanto os “essenciais” continuariam trabalhando sem remuneração. As leis de gastos já sancionadas pelo presidente Donald Trump manteriam o restante do governo em funcionamento.

ICE já é a força policial dos EUA mais cara no Trump 2

O presidente Donald Trump já conseguiu inflar o orçamento do ICE em 2025, quando retornou à Casa Branca. A agência passou a dispor de até US$ 85 bilhões depois da sanção do pacote fiscal “One Big Beautiful Bill”, em julho de 2025 –valor que inclui um suplemento de US$ 75 bilhões, a ser gasto em até 4 anos, além do orçamento-base de cerca de US$ 10 bilhões. Para efeito de comparação, apenas U$ 8,4 bilhões haviam sido enviados para o órgão em 2020, durante o último ano do 1º mandato de Trump. 

Em 2025, o ICE mais que dobrou seu efetivo, de 10.000 para 22.000 agentes, depois de receber cerca de 220 mil candidaturas impulsionadas por bônus de contratação de até US$50.000 e auxílio de até US$ 60.000 para pagamento de empréstimos estudantis.

De acordo com levantamento realizado pela NPR (National Public Radio), a agência se tornou a força policial mais cara dos EUA depois da nova legislação sancionada por Trump. 

O orçamento a ser votado no Senado nesta 5ª feira (29.jan) não impacta os valores estabelecidos na “One Big Beautiful Bill”, mas conta com cerca de U$10 bilhões adicionais, as chamadas appropriations, para serem gastos durante o ano fiscal vigente –que termina em 30 de setembro.

HISTÓRICO DE SHUTDOWNS DO GOVERNO DOS EUA

Ao todo, os Estados Unidos já registraram 11 shutdowns efetivos desde 1981. Três deles, durante os mandatos de Donald Trump. O atual presidente só está atrás de Ronald Reagan (Partido Republicano) no ranking de quantidade de paralisações. 

Os shutdowns durante os mandatos de Raegan duraram só 5 dias ao todo. Enquanto isso, Trump já é, com folga, o presidente que governou mais dias sem um orçamento aprovado: 79 (36 no 1º mandato e 43 no 2º). Além disso, o shutdown mais recente de seu governo, que durou de 30 de setembro até 12 de novembro de 2025, é a mais longa da história.

O levantamento do Poder360 só considerou as paralisações orçamentárias que ativaram procedimentos de shutdown. Ou seja, quando os cortes temporários de recursos exigiram o fechamento de agências federais ou a dispensa de funcionários públicos. 

Cortes orçamentários mais amenos foram necessários outras 10 vezes desde 1977 –início da série histórica consultada pela reportagem. Cinco das paralisações se deram em mandatos de Jimmy Carter (Partido Democrata), e outras 5 –não contabilizadas no levantamento deste jornal digital– foram registradas durante os governos de Reagan. Essas outras interrupções de financiamento duraram, somadas, 75 dias.

Os shutdowns de Carter seguiam uma outra lógica, na qual os órgãos federais não paralisavam efetivamente, mas continuavam atuando sob o pretexto de que o orçamento seria aprovado pelo Congresso em algum momento.

O entendimento mudou no final do governo do democrata, devido a uma nova interpretação jurídica de Benjamin Civiletti, seu procurador-geral. Segundo Civiletti, sob a Lei de Antideficiência, era ilegal o governo gastar dinheiro que não havia sido previamente aprovado pelo Congresso. A partir dessa leitura, o shutdown passou a significar a interrupção real de serviços não essenciais e o envio de funcionários para casa sem remuneração.

Em números absolutos, Jimmy Carter supera Trump em dias de operação sem orçamento aprovado pelo Congresso em um mandato: somou 56 dias ao longo de 5 episódios.

Esta reportagem foi produzida pelo trainee em jornalismo do Poder360 Eduardo Perry sob supervisão da editora-assistente Aline Marcolino.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-internacional/impasse-sobre-ice-pode-causar-novo-shutdown-no-trump-2/

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