A economia da Venezuela, estruturada há mais de 1 século em torno do petróleo desde a descoberta da bacia de Maracaibo, em 1922, entrou em um novo momento com a captura de Nicolás Maduro (PSUV, esquerda), em 3 de janeiro. O país, dono das maiores reservas de petróleo do mundo, transformou sua principal riqueza em fator de vulnerabilidade econômica, isolamento diplomático e, agora, uma nova intervenção direta dos EUA.
A trajetória venezuelana ilustra o paradoxo do petróleo: ao mesmo tempo em que sustentou o Estado por décadas, moldou uma dependência estrutural que atrofiou outros setores produtivos e condicionou a política externa do país. Em 2024, o óleo respondeu por cerca de 15% do PIB.
O PETRÓLEO E A DOENÇA HOLANDESA
Para Hugo Garbe, professor da UPM (Universidade Presbiteriana Mackenzie), a Venezuela é um caso clássico de doença holandesa –um fenômeno em que a abundância de um recurso rentável provoca uma valorização da taxa de câmbio e enfraquece outros setores da economia, reduzindo competitividade e impedindo o desenvolvimento de uma base industrial diversificada.
“A abundância de um recurso natural altamente rentável provoca uma valorização persistente da taxa de câmbio real, reduzindo a competitividade dos demais setores transacionáveis da economia”, afirma ao Poder360.
Marcelo Bassani, economista sócio da Boa Brasil Capital, define o país como um “Estado rentista” –modelo em que o governo se sustenta majoritariamente pela apropriação e redistribuição da renda produzida por um recurso natural, tornando-se menos dependente da atividade produtiva doméstica e mais vulnerável a choques externos e à volatilidade dos preços das commodities.
Segundo ele, “o governo se sustenta não pela tributação de uma economia produtiva diversificada, mas pela apropriação e distribuição da renda gerada por um único recurso natural”. O resultado foi a migração de capital e mão de obra para o setor extrativista, enquanto o restante da economia se deteriorava.
RESTRIÇÕES COMO INSTRUMENTO DE PODER
A queda da produção venezuelana –de mais de 2 milhões de barris diários para cerca de 900 mil– não é apenas consequência de má gestão, mas também de uma estratégia deliberada de pressão externa norte-americana. O advogado Vinicius Bicalho explica que Washington utiliza restrições econômicas como ferramenta de ajuste fino. “As punições econômicas são o instrumento preferencial porque permitem calibrar a pressão sem recorrer ao uso direto da força: você aperta, afrouxa, condiciona, negocia”, afirma ao Poder360.
Na prática, essas restrições atuam em pontos-chave da cadeia do petróleo, como o acesso a financiamento internacional, seguros marítimos, tecnologia de extração, peças de reposição e mercados compradores. Ao limitar a capacidade da estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.) de operar, vender e reinvestir, os EUA reduzem gradualmente o fluxo de caixa do regime, comprimem sua margem de manobra fiscal e ampliam o custo político interno da permanência no poder.
Segundo Bicalho, a lógica muda quando o tema deixa de ser apenas político e passa a ser tratado como questão de segurança nacional. “Nesse cenário, os EUA não se veem apenas como ator político, mas como um Estado que está defendendo sua própria segurança nacional”, diz. Ele declara que “não é ideologia, é cálculo de poder e proteção de interesses”.
Nesse enquadramento, as restrições passam a funcionar como uma forma de coerção estrutural, capaz de enfraquecer adversários estratégicos sem o desgaste imediato de uma guerra aberta –ainda que, como no caso venezuelano, esse tipo de pressão possa evoluir para ações mais diretas.
INTERESSE NORTE-AMERICANO
Para os EUA, o petróleo venezuelano sempre representou mais do que uma commodity, funcionando como um ativo estratégico capaz de influenciar tanto a política interna quanto o equilíbrio geopolítico global. O especialista em política internacional e professor da Berea College Carlos Poggio explica que, embora os EUA sejam grandes produtores, o preço da gasolina é definido pelo mercado global –e isso tem impacto direto sobre a estabilidade política doméstica.
“O aumento ou diminuição do preço da gasolina tem um impacto na popularidade dos governantes”, afirma.
Nesse contexto, segundo Poggio, a ofensiva contra o regime chavista deve ser lida para além da retórica ideológica e inserida em uma disputa estrutural por poder e influência. “Não há dúvida de que isso tem a ver com uma competição envolvendo Rússia e China. A estratégia é negar acesso aos adversários dos norte-americanos, especialmente Rússia e China, ao petróleo”, diz.
Para o analista, a forma como essa disputa se materializou –culminando na captura de Maduro– sinaliza uma inflexão mais profunda na ordem internacional. “O que estamos vendo é um desmoronamento. É uma volta à lei da selva, um Velho Oeste geopolítico, a lei do mais forte”, afirma. Ele destaca que “há um enfraquecimento total das normas de soberania e do direito internacional”.
Esse movimento pode ser relacionado a uma reinterpretação contemporânea da antiga Doutrina Monroe, formulada pelos EUA em 1823 para afirmar que o Hemisfério Ocidental não deveria ser alvo de novas intervenções ou colonizações europeias.
Originalmente, a doutrina visava a barrar a interferência de potências como a Espanha e o Reino Unido nos assuntos internos das recém-independentes repúblicas latino-americanas. Agora, busca suprimir Rússia e China do que os norte-americanos entendem como sua zona de influência.
Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-internacional/o-papel-do-petroleo-na-vulnerabilidade-venezuelana/